Diagnóstico Esclerose Múltipla - Dr. Felipe Toscano

Atualizado: 25 de nov. de 2021

Esclerose Múltipla

A esclerose múltipla é uma doença neurológica autoimune, na qual nossa imunidade reconhece de uma forma errada o sistema nervoso central, que engloba o cérebro e a medula. O principal alvo desse ataque desordenado é a mielina que é uma capa de gordura protetora dos neurônios. Os neurônios desmielinizados, ou desencapados, não funcionam bem, assim como fios de eletricidade desencapados. O ataque repetido contra a mielina vai deixando lesões escleróticas, ou cicatrizes, em diferentes regiões do sistema nervoso central, por isso a doença é chamada de esclerose múltipla.

A esclerose múltipla acontece mais em pessoas jovens, entre 20-40 anos, principalmente brancos e do sexo feminino. No Brasil a prevalência da doença é em torno de 15-20 doentes a cada 100.000 habitantes, no mundo varia de 5 a 300 por 100.000 habitantes, sendo maior nos países de altas latitudes.

Ainda não se conhece uma causa específica, mas são bem conhecidos os seus fatores de risco. Existem alguns genes que aumentam o risco para ter a doença, além disso alguns fatores ambientais podem contribuir para o desenvolvimento da doença, como a obesidade, o tabagismo, a infecção pelo vírus da mononucleose infecciosa, a deficiência de vitamina D e a baixa exposição solar.

Os sintomas de esclerose múltipla são variados, mas os principais são turvação visual com dor no olho, visão dupla, tontura, incontinência urinária, perda de sensibilidade ou de força em algum membro. Na grande maioria dos casos, os sintomas acontecem em surtos. Ou seja, os sintomas podem piorar até 2-3 semanas e podem melhorar espontaneamente. Em alguns meses ou anos o paciente pode ter um novo surto que ao longo do tempo podem deixar sequelas.

O diagnóstico é principalmente clínico, depende de uma boa história médica e exame neurológico para identificar sintomas e sinais típicos dessa doença. Diante da suspeita, nós precisamos de uma ressonância magnética para evidenciar as lesões no cérebro ou medula, as vezes é necessário analisar o líquido cefalorraquidiano, e sempre deve ser feito exames de sangue para excluir outas doenças que podem confundir esse diagnóstico.

O tratamento é realizado com medicações imunomoduladoras, ou seja, que mexem em algum ponto do sistema imunológico e conseguem diminuir o ataque contra sistema nervoso central. Existe uma série de medicações, de potências e formas de aplicações variadas (oral, injetáveis subcutâneas ou intravenosas), com perfil de efeitos colaterais diferentes. A escolha do medicamento é individualizada, de acordo com critérios de gravidade da doença e de preferências daquele paciente. No Brasil temos um bom arsenal de medicações, a maioria disponível no sistema público de saúde, com boa acessibilidade.

A esclerose múltipla é uma importante causa de incapacidade em jovens. O tratamento consegue evitar incapacidades e tem melhor eficácia quando iniciado nos primeiros 5 anos de doença. Portanto é importante sabermos reconhecer precocemente esta doença e permitir que o paciente possa ter uma vida normal no seu lar e no seu emprego, com boa qualidade de vida.


 

O diagnóstico

O diagnóstico de esclerose múltipla é principalmente clínico, ou seja, depende de uma boa história clínica coletada pelo médico neurologista e um exame físico neurológico para identificar sintomas e sinais típicos dessa doença.

Existem síndromes clínicas características de esclerose múltipla, ou seja, um conjunto de sintomas que sugerem uma lesão típica desmielinizante do sistema nervoso central. As principais síndromes desmielinizantes são a neurite óptica, síndrome de tronco e mielite transversa. Os sintomas dependem do local do sistema nervoso central acometido.

A neurite óptica é uma inflamação do nervo óptico, o qual leva a informação visual do olho para o cérebro. Esta inflamação causa embaçamento visual com dor ocular à movimentação, bem como dificuldade para visão de cores, que progridem até cerca de 2 semanas. A síndrome de tronco é qualquer sintoma desencadeado por lesões no tronco encefálico, que são principalmente visão dupla, desvio ocular, tontura e desequilíbrio. A mielite transversa causa sintomas por lesão na medula espinhal, em esclerose múltipla em geral a mielite causa sintomas leves, acometendo 1 ou 2 membros com perda de força ou sensibilidade, ou alterando o controle de micção e evacuação. Esses sintomas podem acontecer em outras doenças e para chegar ao diagnóstico de esclerose múltipla é sempre preciso excluir outras doenças confundidoras.

Diante da suspeita clínica, o principal exame complementar é a ressonância magnética de crânio, coluna cervical e torácica, para evidenciar as lesões desmielinizantes espalhadas no cérebro ou medula. A depender de cada caso, pode ser necessário analisar o líquido cefalorraquidiano e em todos os casos deve ser feito exames de sangue para excluir outas doenças como lúpus, sífilis e a infecção pelo HIV.


 

Tratamento de Esclerose Múltipla

A esclerose múltipla é uma importante causa de incapacidade em jovens. Sem tratamento a doença pode fazer um jovem precisar de uma bengala para andar em cerca de 15-20 anos, ou de uma cadeira de rodas em cerca de 20-30 anos de doença. Mas, atualmente existe tratamento eficaz que modifica a história natural desta doença e conseguirmos evitar o avanço de incapacidades. O tratamento tem duas vertentes, o tratamento de fase aguda e o tratamento de longo prazo.

O tratamento de fase aguda, no momento que o paciente tem um surto da doença, é realizado com corticosteroides em dose alta via endovenosa. Esta medicação acelera a recuperação dos sintomas, mas não controla a doença cronicamente.

O tratamento de longo prazo, que controla a atividade da doença, é baseado em medicações imunomoduladoras, reabilitação com fisioterapia, quando indicada, e sempre é importante ter hábitos de vida saudáveis como atividade física, alimentação adequada e cessar tabagismo.

As medicações imunomoduladoras mexem em algum ponto do sistema imunológico e conseguem diminuir o ataque contra sistema nervoso central. Existe uma série de medicações, de potências e formas de aplicações variadas (oral, injetáveis subcutâneas ou intravenosas), com perfil de efeitos colaterais diferentes. No Brasil temos um bom arsenal de medicações, a maioria disponível no sistema público de saúde, com boa acessibilidade, e algumas são possíveis ter acesso pelo plano de saúde.

No Brasil temos três linhas de tratamento de esclerose múltipla, as medicações de primeira linha são as interferonas, acetato de glatiramer e teriflunomida. Em segunda linha temos o fingolimode e o fumarato de dimetila. E em terceira linha temos as medicações de mais alta eficácia, que são natalizumabe, ocrelizumabe e alentuzumabe, que são os chamados anticorpos monoclonais, e recentemente tivemos uma nova medicação aprovada pela ANVISA, a cladribina.

A escolha do medicamento é individualizada e em conjunto com o paciente, de acordo com fatores individuais de cada doente, bem como critérios de gravidade da doença. Como fatores individuais de cada paciente devem ser considerados o seu dia a dia e seu tipo de trabalho, desejo de ter filhos, tolerância à comprimidos ou medicações injetáveis e a coexistência de outras doenças. E como critérios de gravidade, devem ser considerados a idade mais avançada, o sexo masculino, lesões medulares, número de lesões na ressonância, número de surtos, se houve surtos motores que comprometeram a capacidade de andar ou qualquer surto que não melhorou completamente.

É importante o reconhecimento precoce e iniciar o tratamento nos primeiros 5 anos da doença, com maior chance de evitar incapacidades e conseguir que o paciente tenha uma vida o mais próxima do normal possível, que possa trabalhar, se exercitar e viver bem com sua família.

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