O Cérebro do Músico, Ciência e Sensibilidade
- NeuroSapiens

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Romance em ficção científica escrito por Neurocirurgião
Após um século de descobertas científicas surpreendentes, o neurocirurgião Prof. Dr. Antonio de Salles escreve o “Cérebro do Músico: Ciência e Sensibilidade”, uma ficção épico-trágica sobre o controle de uma doença genética devastadora, a distonia, que, pela sua propensão genética, pode ser desencadeada por drogas tóxicas, episódios isquêmicos e eventos hipóxicos. Essas agressões ao tecido nervoso predisposto, causam más adaptações plásticas dos circuitos neurais, que podem ser corrigidas pelas técnicas bioeletrônicas – uma possibilidade não imaginada pelo neurocientista espanhol Cajal no início do século passado. Embora esta história seja uma ficção, ela reflete a realidade cotidiana de grandes centros médicos em todo o mundo, ainda que com dispositivos eletrônicos menos avançados que os apresentados na narrativa.
A velocidade dos avanços científicos no século passado e na virada do século XXI permitiu conquistas genômicas e eletrônicas sem precedentes. Os desenvolvimentos na física e na química forneceram as ferramentas necessárias para esses progressos, apoiados por conhecimentos acumulados pelo Homo sapiens graças à sua capacidade singular de transmitir saber ao longo das gerações. Começamos a compreender as conexões nervosas a partir dos estudos microscópicos de Ramón y Cajal, posteriormente integrados às descobertas sobre o funcionamento molecular e metabólico do cérebro vivo, hoje demonstradas por meio de técnicas de imagem molecular e funcional. Passamos, assim, a reconhecer o cérebro vivo como uma rede eletroquímica capaz de se reorganizar e se corrigir, abrindo caminho para o tratamento efetivo de doenças e até mesmo para o aprimoramento, eticamente controverso, de suas funções inteligentes.
Golgi e Cajal dividiram o Prémio Nobel em 1906 pelo profundo conhecimento microscópico do cérebro que nos proporcionaram. Revelaram o cérebro como uma máquina viva, plástica, adaptável ao longo da vida, moldada às demandas do meio ambiente ao Homo sapiens, trazendo-o ao acúmen das espécies. Roentgen foi o pioneiro das imagens em vida, valendo-lhe o primeiro Prêmio Nobel em 1901. A série de revelações pelas imagens em vida continuou durante o século passado com os “Curies”, Nobel em 1903, e com o controverso Nobel para Egas Moniz em 1949. Ele o recebeu pela lobotomia frontal, secção das vias nervosas, quando deveria ter sido premiado pela incontestável importância da sua descoberta da angiografia cerebral. O Prêmio Nobel para Cormack & Hounsfield em 1979, trouxe o algoritmo computacional para obter imagens computadorizadas com os raios-X, abrindo as possibilidades às imagens digitais. Este algoritmo também permitiu captar a imagens usando o relaxamento por ressonância magnética nuclear (RMN) introduzida por Bloemberger, razão do seu Prêmio Nobel em 1981. Este seguido pelo Prêmio Nobel de Mansfield & Lauterbur concedido por eles acelerarem o algoritmo para a ressonância magnética em 2003.
Através desta ciência desenvolvida no século passado, a nossa compreensão do funcionamento do cérebro disparou. As imagens moleculares utilizando a tomografia por emissão de pósitrons (PET), merece um Prêmio Nobel, sua importância é indiscutível na medicina, a controvérsia é: quem merece a homenagem. Tem sido um enigma para o comitê do Prêmio Nobel decidir quem é o inventor do PET. O artigo de 1975 que descreve o dispositivo PET como pioneiro gerou inúmeras controvérsias. O estudo da transdução no tecido nervoso realizado por Karlsson, Greengard e Kandel mereceu o Prêmio Nobel em 2000, trazendo a compreensão das bases neuroquímicas do cérebro. Conhecimento agora usado para a neuromodulação com medicamentos e próteses eletrônicas.
Vivemos um momento científico de informações cada vez mais sofisticadas, inclusive com a possibilidade de corrigir o genoma humano. Técnicas de modificação do gene, como CRISPR, já estão disponíveis. A engenharia do código genético corrige formas hereditárias da distonia, tema central do livro “O Cérebro do Músico: Ciência e Sensibilidade”, assim como tratar uma infinidade de outras doenças genéticas que impedem muitos indivíduos de levar uma vida plena e produtiva. A biologia molecular revelou a estrutura do DNA, feito alcançado conjuntamente por Watson, Crick e Wilkins recebendo o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1962. Nesta década, com a engenharia CRISPR do genoma, as cientistas Doudna & Charpentier ganharam o Prêmio Nobel em 2022, trazendo a medicina a um novo patamar, o da manipulação da vida, das doenças e das espécies. Estes cientistas excepcionais nos levam a questionar se podemos mudar a essência da vida, melhorar as plantas e modificar os animais e proporcionar alimentos para a crescente população de humanos. Igualmente importante é a cura de doenças genéticas, incluindo o câncer, neurodegenerações e uma infinidade de disfunções do desenvolvimento e metabolismo que roubam dos humanos a possibilidade de desfrutar o paraíso terrestre.
O aprimoramento dos seres humanos, antes e depois do nascimento, é eticamente controversa. O livro “O Cérebro do Músico: Ciência e Sensibilidade” fundamentado na evolução neurocirúrgica levanta várias questões emergentes: para onde a arte e a ciência estão levando os humanos na era das próteses nervosas e do CRISPR? Quem irá lidar com as questões éticas dos seres humanos geneticamente modificados e auxiliados por chips implantáveis? A disparidade social entre os humanos aumentará? Estas tecnologias são extremamente caras no momento, significando que apenas os mais abastados financeiramente podem se beneficiar destas proezas científicas. Pelo menos, isso será verdade até que elas cheguem às massas, como fizeram os computadores.
Dr. Antonio A.F. De Salles, M.D, Ph.D - Professor Emeritus of Neurosurgery - UCLA Departments of Neurosurgery and Radiation Oncology. Co- Director NeuroSapiens - Rede D'Or São Luiz. Past-President Ibero-Latin-American Radiosurgery Society and International Stereotactic Radiosurgery Society.


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