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Cirurgia Genética Não Invasiva

  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Hoje, podemos afirmar com segurança que temos um procedimento ambulatorial eficaz e não invasivo, que oferece uma solução mais econômica do que a cirurgia aberta tradicional, a qual ainda pratico quando necessário, porém não-invasivamente estamos resolvendo distúrbios cerebrais graves em aproximadamente 30% dos pacientes atendidos em um centro de neurocirurgia de grande movimento, com base em nosso trabalho na Universidade da California em Los Angeles  (UCLA) ao longo de mais de 20 anos. Essa porcentagem promete se repetir em outras especialidades cirúrgicas, como cirurgia torácica, otorrinolaringologia, urologia e cirurgia geral.

A radiocirurgia de alta qualidade usando aparelhos como a Gamma Knife, Cyberknife e Zap-X continuará ampliando suas aplicações na neurocirurgia, bem como na radio-oncologia. A dose única e o hipofracionamento revolucionaram a prática da radio-oncologia, dando origem à chamada radioterapia estereotáxica corporal (SBRT). A prática da radiocirurgia tende a crescer ainda mais à medida que o diagnóstico por imagem melhora, com detecção mais precoce de pequenas lesões, dispensando a necessidade de biópsia e de intervenções cirúrgicas maiores, ainda necessárias quando o efeito de massa dentro da cavidade craniana é a causa dos sintomas. Esse fato já é uma realidade para tumores pulmonares. 

Compreender os efeitos da radiação sobre a vasculatura é importante para determinar a eficácia da radiocirurgia em oncologia. Além da morte celular, é hoje bem aceito que, quanto maior a dose por fração, mais forte é a obstrução da vasculatura tumoral, um potente adjuvante para a destruição da lesão. O tratamento de malformações vasculares reforçou esse conhecimento. O tratamento radiocirúrgico de pequenos aneurismas, de 7 mm ou menos de diâmetro, ainda não rotos, — ou seja, reforçando a parede arterial — já é viável, como demonstraram nossos estudos experimentais sobre deposição de colágeno tipo IV, assim como a Radiocirurgia por Gamma Knife dirigida especificamente a aneurismas experimentais. O número crescente de relatos de casos na literatura sobre obliteração de aneurismas por radiocirurgia atesta a possibilidade dessa aplicação. 

Nossa demonstração de desmielinização parcial de nervos periféricos após radiocirurgia abre diversas oportunidades à medida que aprendemos as nuances de dose para cada aplicação. Além do tratamento da neuralgia do trigêmeo clássica, da neuralgia glossofaríngea e da cefaleia em salvas, o tratamento do espasmo facial, da vertigem severa e até do zumbido demonstram as possibilidades de uma nova modulação radiocirúrgica dos nervos periféricos, firmando a existência da radiomodulação. A rara neuralgia do nervo vidiano e outras disautonomias de difícil diagnóstico podem se tornar tratáveis também pela radiocirurgia.

A radiocirurgia com a radiomodulação continua sendo uma excelente opção para pacientes com ectopias corticais em áreas eloquentes do cérebro , osquais não são candidatos à cirurgia aberta. Essa aplicação permanece altamente inexplorada. Os resultados obtidos com hamartomas hipotalâmicos são evidência de que, sem causar efeitos colaterais, as crises podem ser controladas, nesta localização de dificilimo acesso da cirurgia convencional. Esses resultados encorajadores demandam estudos bem delineados para melhor definir o papel da radiomodulação em pacientes com epilepsia clinicamente refratária.

A indução de neurotransmissores com doses moderadas de radiocirurgia, ou seja radiomodulação, aplicadas em áreas cerebrais ricas em neuroquímica específica, é um achado empolgante. Podemos vir a aprender a modificar o perfil genético de células produtoras de neurotransmissores, corrigindo, por exemplo, os déficits de acetilcolina na doença de Alzheimer, de dopamina na doença de Parkinson e serotonina para o manejo da depressão. A radiocirurgia pode se tornar uma modalidade para o manejo dessas doenças funcionais do cérebro, ainda tão desafiadoras. As desconexões bem-sucedidas alcançadas pela radiocirurgia, por exemplo, nos transtornos obsessivo-compulsivos, já se mostraram eficazes em ensaios clínicos randomizados; em conjunto, a modulação de neurotransmissores sugere um futuro promissor para a radiocirurgia funcional, potencialmente além do já comprovado excelente papel em oncologia. Além disso, cabe mencionar o efeito abscópico, que representa a estimulação do sistema imunológico pela radiocirurgia para tratar diversas neoplasias; de fato, o futuro da radiocirurgia é fecundo. Imaginação e criatividade, como demonstraram os pioneiros da especialidade, são os caminhos para seu sucesso contínuo.

Participar do ensino mundial de radiocirurgia ao longo dos nossos 30 anos fora do nosso país natal tem sido um prazer. Agora realizamos um sonho de juventude no Brasil junto a Dra. Alessandra Gorgulho, aqui temos colegas que estudaram radiocirurgia conosco na maioria dos estados brasileiros. Embora eu ainda trate os pacientes um a um, o alcance de transmitir a arte e a ciência médicas é infinito, pois nossos alunos eternizam nossa influência. É por isso que os humanos são Homo sapiens: geração após geração, o conhecimento é acumulado e transmitido adiante. Hoje chamamos a radiocirurgia de “Cirurgia Genética Não-Invasiva”, nesta era de entendimento do genoma humano. Precisamos compreender a poderosa interação da radioatividade com o genoma e o ambiente celular, aproveitando cada oportunidade para diminuir o sofrimento, curar doenças e prolongar e melhorar a vida humana.

 

Dr. Antonio De Salles

Co-diretor da NeuroSapiens.org

Saúde do cérebro e da coluna
Localizada em São Paulo, a instituição é formada por neurocirurgiões, neurologistas e psiquiatras titulados, oferecemos qualidade no atendimento, diagnóstico e procedimentos cirúrgicos.

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